Descomodização da soja: como a rastreabilidade valoriza o grão no mercado de biocombustíveis
Rastreabilidade da soja: Guilherme Dominici, da MERX, explica a descomodização e como dados do CAR elevam a elegibilidade a CBIOs.

Resumo direto
- Descomodização é a segmentação da soja por características de produção, como pegada de carbono e elegibilidade a CBIOs.
- Hoje só 20% do biodiesel de óleo de soja gera CBIOs; o gargalo é a falta de dados ao longo da cadeia.
- O CAR georreferencia quase 7 milhões de propriedades e permite a rastreabilidade.
- Empresas que adotaram rastreabilidade passaram de 0% para 90% de elegibilidade, em cerca de 4 meses.
Assista à entrevista
Indústria de biocombustíveis pode ampliar elegibilidade e geração de CBios
A descomodização da soja está revolucionando o mercado brasileiro de biocombustíveis, criando novas oportunidades de valorização para produtores rurais e indústrias do setor. Em entrevista exclusiva ao programa Energia Agro, Guilherme Dominici, sócio da MERX, revelou como a rastreabilidade e os dados de produção estão transformando commodities tradicionais em produtos diferenciados.
O que é a descomodização da soja?
Segundo Dominici, a descomodização representa o movimento inverso ao que conhecíamos no passado. Enquanto antes tratávamos a soja como uma commodity uniforme, hoje ela se segmenta conforme características específicas de produção:
| – Soja transgênica vs. não transgênica |
- Soja elegível para CBIOs vs. não elegível
- Diferentes pegadas de carbono por região
- Rastreabilidade da origem produtiva
Por que está acontecendo?
Os consumidores finais e empresas que utilizam matérias-primas agrícolas passaram a exigir transparência sobre como os produtos são produzidos. No Brasil, essa demanda se intensificou com:
| 1. Programa RenovaBio e emissão de CBIOs |
- Regulamentações da União Europeia sobre origem de produtos agrícolas
- Exigências de sustentabilidade dos mercados consumidores
CBIOs: a nova moeda verde do agronegócio
Os Créditos de Descarbonização (CBIOs) representam a comprovação de que determinado biocombustível retirou ou evitou a emissão de uma tonelada de CO₂ da atmosfera. Para soja ser elegível aos CBIOs, ela deve:
| – Não ter passado por supressão de vegetação nativa após dezembro de 2017 |
- Ter rastreabilidade completa da cadeia produtiva
- Apresentar dados primários de produção sustentável
Cenário atual dos CBIOs
Atualmente, apenas 20% do biodiesel produzido a partir de óleo de soja gera CBIOs, embora especialistas estimem que o Brasil tenha capacidade para chegar a 100% de elegibilidade. O gargalo não está na qualidade da produção brasileira, mas na falta de dados ao longo da cadeia.
O desafio da rastreabilidade na cadeia produtiva
A cadeia de grãos brasileira possui múltiplos entrepostos:
| 1. Produtor rural → produz a soja |
- Armazém local → secagem e beneficiamento
- Empresa comercializadora → intermediação
- Indústria de biocombustível → produto final
O problema: Enquanto as notas fiscais acompanham as transações comerciais, os dados de produção se perdem ao longo da cadeia. Não há mecanismos padronizados para transmitir informações sobre:
- Fazenda de origem
- Métodos de produção utilizados
- Pegada de carbono da propriedade
- Certificações ambientais
Tecnologia e CAR: soluções para a rastreabilidade
O Brasil possui vantagem competitiva única com o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que georreferencia quase 7 milhões de propriedades rurais. Essa base de dados permite:
| ### Mapeamento Digital Completo |
- Características detalhadas de cada propriedade
- Evolução temporal das áreas produtivas
- Verificação de conformidade ambiental
- Análise de sustentabilidade por região
Coleta de dados primários
A tecnologia permite levantar informações precisas sobre:
| – Consumo de sementes, fertilizantes e defensivos |
- Produtividade real por propriedade
- Práticas agrícolas sustentáveis adotadas
- Proximidade de unidades industriais
Cases de sucesso: de 0% a 90% de elegibilidade
Empresas que implementaram sistemas de rastreabilidade conseguiram resultados impressionantes:
| – Indústrias que não emitiam CBIOs passaram a ter 80-90% de fração elegível |
- Processo de implementação leva aproximadamente 4 meses
- ROI positivo através da valorização dos CBIOs
Benefícios da maior produtividade
O aumento da produtividade brasileira contribui diretamente para a sustentabilidade:
| > “Se uso a mesma área e produzo mais, tenho uma produção mais sustentável. Utilizo o mesmo recurso escasso – a terra – para produzir mais alimento.” – Guilherme Dominici |
Isso se converte em melhores notas no RenovaBio e aumento de CBIOs por tonelada de matéria-prima.
Regulamentação e perspectivas futuras
Marco regulatório atual
- ANP reformou a regulamentação do RenovaBio em 2022
- Cadeia de custódia instituída oficialmente
- Normas interpretativas permitem adaptação por bioma
Desafios regulatórios
- LGPD e compartilhamento de dados na cadeia
- Necessidade de agentes custodiantes para anonimização
- Padronização de processos de troca de informações
Oportunidades para produtores e indústrias
Para produtores rurais:
- Valorização da produção sustentável
- Acesso a mercados premium
- Diferenciação competitiva
Para indústrias de biocombustíveis:
- Aumento da receita via CBIOs
- Compliance com regulamentações internacionais
- Vantagem competitiva no mercado
O futuro é rastreável
A descomodização da soja representa uma transformação irreversível no agronegócio brasileiro. Produtores e indústrias que não se adaptarem à nova realidade da rastreabilidade podem estar perdendo oportunidades significativas de valorização.
O Brasil possui todas as condições para liderar globalmente nesse processo: produção sustentável comprovada, tecnologia avançada de georreferenciamento e marco regulatório estabelecido. O desafio agora é conectar todos os elos da cadeia através de dados confiáveis e transparentes.
Os números do artigo
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Biodiesel de soja que gera CBIOs hoje | 20% |
| Propriedades no CAR | quase 7 milhões |
| Elegibilidade após a rastreabilidade | de 0% para 90% |
| Tempo de implementação | cerca de 4 meses |
Sobre o autor
Donizete Tokarski
Engenheiro agrônomo formado pela UFG, presidente executivo da Ubrabio (União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene), sócio-diretor da LKT Consultores Associados e apresentador do programa Energia Agro, no Canal AgroMais.
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